Antes de qualquer adjetivo existir

✎ Editar publicação

Antes de qualquer adjetivo existir

Foto: Declan Sun em Unsplash

Ao acordar no meio da noite em um quarto escuro, há um intervalo minúsculo — uma fração de segundo — em que você ainda não lembra o próprio nome, a idade, a lista de tarefas pendentes ou o lugar exato onde adormeceu. Contudo, você não duvida de que existe. Não há dúvida, esforço ou dedução lógica: a existência é imediata, nua e evidente por si mesma.

Essa presença pura e anterior a qualquer narrativa biográfica é o ponto de partida e de chegada de toda a tradição não-dual. Antes que a memória recupere a identidade civil e o corpo reclame o cansaço do dia anterior, a consciência já está operando.

Nisargadatta Maharaj resumiu essa constatação com uma precisão despida de qualquer artifício:

Sem o 'eu sou', não há nada. Todo o conhecimento se refere ao 'eu sou'. As ideias falsas sobre este 'eu sou' conduzem à servidão; a compreensão correta conduz à liberdade e à felicidade.
Nisargadatta Maharaj

O ensinamento parece simples demais para a mente habituada a sistemas complexos. Nós tendemos a acreditar que o mundo objetivo existe com independência total da nossa percepção e que nós somos pequenas testemunhas acidentais dentro de um universo gigantesco. Mas a investigação direta revela o oposto: tudo o que você já conheceu, sentiu, temeu ou desejou dependeu, sem exceção, do testemunho primário da sua própria presença.

Se o senso de 'eu sou' desaparece — como no sono profundo sem sonhos —, o universo inteiro desaparece com ele. O mundo só surge quando a lâmpada da presença se acende.

O problema, como aponta Nisargadatta, não está no fato primordial de existir, mas no que é acrescentado a ele logo em seguida. A consciência pura não vem rotulada. No entanto, em uma fração de milésimo, o pensamento sobrepõe qualificadores ao fato de ser: 'eu sou culpado', 'eu sou incapaz', 'eu sou espiritualizado', 'eu sou o dono deste corpo'. Na tradição do Advaita, Shankara chamava esse processo de sobreposição ou adhyasa — a colagem mecânica de atributos efêmeros sobre uma realidade imutável.

A mente egoica resiste violentamente a essa simplicidade. Ela interpreta o 'eu sou' não como o fato vivo da consciência, mas como um projeto pessoal a ser aprimorado. O ego tenta transformar a própria espiritualidade em mais um adjetivo decorativo: em vez de apenas 'ser', ele busca se tornar alguém que 'alcançou a não-dualidade'. Essa é a servidão a que o texto se refere: a escravidão de carregar nos ombros uma coleção interminável de definições sobre si mesmo.

A auto-observação não exige rituais nem o silenciamento forçado dos pensamentos. Consiste unicamente em reparar na diferença entre a presença que sabe que há pensamentos e o conteúdo desses pensamentos. Você não precisa construir o 'eu sou'; ele já está em funcionamento antes do próximo suspiro.

Quando a atenção recua das histórias que a mente conta sobre quem você é e repousa no fato bruto de que você simplesmente é, o peso das identidades emprestadas desmorona. A busca cessa não porque você encontrou um objeto raro, mas porque percebeu quem sustentava a lanterna desde o início.