A corrente constante sob o leito das horas

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A corrente constante sob o leito das horas

Foto: Elliott Colburn em Unsplash

A água não envelhece.

Observamos a correnteza desgastar as pedras da margem ano após ano, assumindo precipitadamente que o fluxo inteiro caminha para o seu esgotamento definitivo. Confundimos a calha de terra com o elemento líquido que por ela passa sem jamais se fixar.

Contudo, o leito desgasta.

"O que acontece com eles quando a velhice se aproxima e o corpo se dissolve na morte? Apesar de a velhice chegar ao corpo, o lótus do coração não envelhece. Por ocasião da morte do corpo, ele não morre."
CHANDOGYA

Este trecho da tradição dos Upanishads expõe sem rodeios a separação conceitual entre a estrutura biológica sujeita ao tempo e o núcleo consciente indestrutível. A abordagem não-dual aponta para o centro intangível da percepção, a testemunha imparcial que não compartilha dos danos sofridos pela forma física.

Habituada a medir o valor da existência pelas transformações visíveis da matéria, a mente egoica reage com pavor diante das rugas e da diminuição do vigor físico. Ela tenta desesperadamente agarrar a água com as mãos abertas, criando projeções fantasiosas sobre a sobrevivência da personalidade em outros planos para mitigar o medo da extinção total. Essa tentativa de perpetuar o eu individual nada mais é do que o esforço de uma onda que busca manter sua forma específica após se dissolver na imensidão do oceano. Em vez de investigar a natureza da própria consciência que percebe o envelhecimento, o pensamento prefere fabular destinos pós-morte, agarrando-se à memória de uma identidade que já muda a cada instante. O verdadeiro mistério não reside no que acontecerá amanhã com a carne, mas no fato de que aquilo que ilumina a experiência presente jamais foi tocado pela passagem das horas.

Ainda assim, a margem cede.

Conceitos clássicos do Advaita sugerem que o intelecto atua apenas como um canal temporário, onde a Consciência se reflete sem jamais se aprisionar nas paredes do instrumento. Quando Shankara analisa as qualificações do investigador, ele sublinha a necessidade de discriminar entre o eterno e o transitório, um exercício rigoroso que exige desatar a identificação cega com as modificações corporais. Se o corpo adoece ou enfraquece, a faculdade de estar ciente dessa deterioração permanece rigorosamente ilesa, sem apresentar qualquer sinal de cansaço ou decrepitude. O rio continua sua trajetória inalterada independentemente de a calha ser estreita ou rochosa; a substância da água não se contamina pelo lodo do fundo nem se envaidece com a clareza da superfície. Da mesma forma, a presença silenciosa no fundo de cada ser — referida metaforicamente pelos mestres antigos como a morada no lótus do coração — não acumula idade, marcas de trauma ou declínio cognitivo. Reconhecer essa dimensão imutável durante o curso dos afazeres diários mata a ilusão de que somos um organismo condenado ao esquecimento.

No entanto, nada se perde.

Diariamente, a prática do autoinquérito não exige o isolamento em cavernas ou o abandono das responsabilidades no mundo. Trata-se de redirecionar a atenção da cena observada para a fonte que observa, perguntando quem é o sujeito que registra o cansaço do fim de tarde. Ao constatar que a consciência do cansaço não está, ela mesma, cansada, descobre-se a margem inabalável no meio da correnteza.

Observar as próprias mãos pela manhã e perceber as marcas do tempo na pele não precisa ser um ato de desespero nem de resignação passiva. Essa percepção direta pode se tornar o ponto de partida para reconhecer que o observador das mudanças físicas é exatamente o mesmo que assistia à infância décadas atrás. A substância do rio jamais se deteve nas pedras do caminho, nem secou quando o leito mudou de curso ao longo dos anos. A morte dissolve apenas a estrutura temporária que canalizava o fluxo, devolvendo o elemento ao seu estado natural irrestrito e atemporal. O rio permanece.