O corpo que não cabe na própria pele

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O corpo que não cabe na própria pele

Foto: Amandine L. em Unsplash

Olhar nos olhos de um desconhecido no transporte público costuma erguer uma muralha invisível instantânea. A mente traça com rapidez cirúrgica a linha divisória entre o eu e o outro, limitando a própria existência ao perímetro do crânio e à superfície do tecido cutâneo.

Essa experiência de isolamento parece tão natural e inquestionável que raramente examinamos a premissa em que se baseia. Acreditamos ser fragmentos isolados navegando por um ambiente hostil ou indiferente, confinados a uma biologia particular que nasce, sofre e se extingue em completo insulamento.

Cada boca que chama por Deus é a minha boca, cada olho que vê é meu olho. Não estamos confinados a nenhuma parte; não somos corpo, o universo é nosso corpo.
Swami Vivekananda

Essa afirmação de Swami Vivekananda não é uma metáfora poética e nem um apelo ao afeto universal. Trata-se de uma descrição literal da natureza da consciência quando despida das superimposições mentais. O ar que atravessa dezenas de flautas produz notas e variações distintas, mas o vento que gera o som permanece rigorosamente o mesmo.

Na tradição do Advaita Vedanta, as diferenças corporais e mentais são tratadas apenas como atributos limitantes, conhecidos em sânscrito como upadhis. Uma garrafa de vidro verde faz com que o espaço em seu interior pareça verde e separado, mas o espaço em si jamais foi alterado, colorido ou aprisionado pelo vidro. Quando a estrutura se rompe, percebe-se que a divisão nunca existiu.

A mente egoica resiste com veemência a essa constatação. Ela prefere reinterpretar o ensinamento como uma tarefa moral impraticável, exigindo que sintamos empatia forçada por bilhões de indivíduos, ou como uma abstração sem aplicação prática. O ego teme perder suas fronteiras porque sua própria sobrevivência depende da oposição contínua entre o que considera seu e o que rejeita como alheio.

A tradição dos Upanishads e os ensinamentos de Shankara demonstram que a pluralidade do mundo manifesto depende de formas e nomes para parecer diversa, mas essas formas não possuem realidade independente da substância primordial, assim como o barro dá formato ao vaso sem jamais deixar de ser barro.

A investigação direta não exige o esforço de abraçar o mundo inteiro com o pensamento. Na vida cotidiana, a auto-observação começa no exato momento em que percebemos a reação de esquiva ou julgamento diante de outra pessoa. Em vez de seguir o hábito de reificar a separação, observa-se a própria presença que testemunha o fato. O olhar que observa através daqueles olhos e o olhar que observa a partir destes não é multiplicado pelas estruturas que atravessa.

A convicção de ser apenas uma fração do mundo é um hábito mantido pela falta de exame. A consciência jamais esteve contida na pele.