A trama que não se desfaz

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Quantos nós um alfaiate precisa apertar antes de confiar que a costura de uma bainha não vai ceder ao primeiro puxão do inverno? Olhamos para a roupa vestida e reparamos no desenho das pregas, na precisão dos pespontos ou no tom desbotado do tingimento, esquecendo a trama crua que acolhe toda essa montagem. Há um hábito tenaz em tomar a sobreposição visível pelo próprio alicerce daquilo que veste. Projetamos estabilidade nos arremates provisórios.

A agulha fura a superfície repetidas vezes sem jamais ferir a substância que perfura. Cada laçada inventa contornos provisórios sobre uma base que nunca pediu desenho algum.

Nenhum ponto altera o pano.

Buscamos desesperadamente tornar a trajetória biográfica indelével, acumulando camadas de feitos e identidades sobrepostas. O indivíduo crê que sua consistência deriva da espessura do casaco confeccionado com hábitos, memórias e receios. Quando qualquer pesponto afrouxa, o pavor de desintegração consome a mente, que confunde o desgaste da costura com o aniquilamento do fundamento.

Essa resistência alimenta a obsessão por reformas interiores infindáveis. Ajustamos as mangas esperando que o vestuário reformado conceda imunidade àquilo que, em essência, nunca dependeu de roupas.

Na investigação de si mesmo, essa teimosia adquire requintes sutis. O intelecto quer colecionar virtudes como quem prega insígnias no peito, imaginando que o absoluto é um tecido nobre a ser comprado e costurado sobre o peito nu. Mas o substrato comum a todas as coisas não admite novos bordados ou reformas morais de ocasião. Nada lhe falta. O real precede qualquer acabamento estilístico que a imaginação sobreponha à existência nua.

O linho intacto sob o bordado do tempo

Foto: Joshua Hoehne em Unsplash

"Aquele que conhece o imutável, o puro, o sem sombra, o incorpóreo, o sem cor, atinge Brahman, ó meu amigo. Tal pessoa se torna conhecedora de tudo, e habita em todos os seres."
Prasna Upanishad

Habitar em todos os seres não significa espalhar fios invisíveis pelo mundo, mas reconhecer a mesmíssima fibra original de onde brotam todas as estampas. Quando o olhar cessa de avaliar a elegância das costuras e repousa no linho que sustenta o bordado alheio, a distância entre o alfaiate e a peça se dissolve inteira.

O falso conhecimento sempre tenta tingir o que é intrinsecamente desprovido de pigmento. Afirmar que a essência é sem cor soa como afronta para a mente habituada a valorizar apenas matizes e contrastes ruidosos. Ela exige uma iluminação luminosa, cheia de fulgor e relevos dramáticos, recusando a constatação de que a realidade imutável não projeta sombra alguma porque nada existe fora dela para bloquear a claridade. O apego à tintura é a raiz do medo da morte.

Ao examinar a respiração ou o surgimento de um pensamento irritado no meio da tarde, costumamos agir como remendões afobados. Queremos consertar o traço, cortar o excesso de linha, desfazer o ponto torto com julgamentos severos e técnicas corretivas. Não percebemos que o espaço consciente onde a tensão se desenha permanece tão calmo e intocado quanto a fibra crua sob o remendo mais desajeitado. Na tradição védica, como recordaria Gaudapada séculos depois, nada verdadeiramente se produz ou se rasga; toda a agitação pertence à variação das formas aparentes, enquanto o tecido fundamental repousa livre de nascimento, desgaste ou finalidade.

Apenas espaço contínuo e silencioso.

Perceber essa nudez original na rotina não demanda retiros solenes nem o abandono das vestimentas do cotidiano. Consiste simplesmente em não confundir a textura passageira do que se sente com o suporte permanente onde o sentir acontece. O frio da manhã, o cansaço dos ombros e a correria dos compromissos são apenas linhas cruzadas na tapeçaria do instante. Não há mancha que alcance a natureza do linho.

Tudo permanece desprovido de borda.

Quando a atenção recua da obsessão pelo desenho e pousa na nudez daquilo que sustenta a percepção, o drama da mortalidade perde seu peso sufocante. Já não se trata de salvar a roupa do desgaste natural dos anos, nem de remendar obsessivamente as partes desfiadas da própria história pessoal. Descobre-se que a totalidade nunca esteve confinada aos limites da bainha que julgávamos nos definir perante os outros. Uma meada de fio cru descansa sobre a bancada de madeira escura ao lado de uma tesoura de ferro aberta.