A extensão sem margens onde tudo corre

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Toda palavra inventada pela linguagem carrega a pretensão velada de aprisionar aquilo que aponta, como se batizar uma margem fosse capaz de conter o leito inteiro. Falamos em imobilidade e logo imaginamos rigidez pétrea; falamos em movimento e imediatamente supomos atrito, desgaste e esforço mecânico. Esse vocabulário utilitário nos faz crer que existir exige tensão contínua entre conter e fluir. No entanto, o próprio ato de tentar cercar a realidade com definições revela uma fissura prévia: a matéria verbal tenta demarcar um contorno onde nunca houve parede, inventando fronteiras artificiais para descrever uma presença que já abriga o próprio som da fala.

A gramática ordinária tropeça sempre que tenta traduzir a ausência de conflito. Ela exige um agente que empurre e um objeto empurrado.

Todo o mundo movível e imovível está englobado pela alma imutável, sem esforço algum. Esse Atma é por natureza tranquilo, inteligente e livre como o espaço. Ele movimenta todo o Mundo movível e imovível sem o menor esforço. É onipresente.
Dattatreya, Avadhut Gita

Dattatreya corta essa ilusão de confronto sem recorrer a qualquer solenidade artificial, apresentando o Atma — a pura consciência — como o espaço que não trava disputa com as águas que o atravessam. Quando uma correnteza desce com fúria por uma garganta estreita, espumando contra as rochas pontiagudas, o leito espaçoso não se tensiona para abrir passagem à enxurrada. Não há suor, deliberação ou resistência na acomodação de cada gota turbulenta. Da mesma forma, a totalidade do que se desloca e do que repousa subsiste dentro dessa quietude aberta, sem jamais desgastá-la ou exigir dela a menor concessão.

Nada precisa de permissão.

A extensão sem margens onde tudo corre

Foto: Alexander Gluschenko em Unsplash

Nossa mente resiste ferozmente a essa constatação evidente. Habituada ao trabalho extenuante de gerenciar sensações, ela supõe que sustentar a própria existência requer um vigia atento e permanente.

Acreditamos que se relaxarmos a musculatura psicológica que monitora cada pensamento, o fluxo da vida transbordará em desordem irreversível. Projetamos esforço onde há apenas acolhimento natural e convertemos a simples observação em uma tarefa hercúlea de controle das águas internas. O intelecto fabrica a ficção de que é o timoneiro do rio, temendo afogar-se na própria substância de que é feito. É precisamente esse equívoco que as correntes clássicas do Vedanta apontam ao distinguir a agitação efêmera da onda da calmaria imperturbada da profundeza, onde nenhuma tempestade superficial consegue penetrar.

Na auto-observação despida de artifícios, a mecânica desse engano desmorona diante de um exame despretensioso durante as tarefas cotidianas. Veja bem. O som de um tráfego distante, o aperto sutil no peito diante de uma notícia amarga ou o descanso mudo das mãos sobre o colo não competem entre si por um pedaço de território interior. Tudo surge, atinge o ápice e se desmancha sem que a testemunha imutável precise levantar um único dedo para acolher ou expulsar o fenômeno. O espaço consciente não se molha com as tristezas que escorrem nem se purifica com os momentos de serenidade súbita. Toda a movimentação biológica e mental é sustentada com a mesma facilidade com que o ar permite o bater de asas de um pássaro em travessia.

Perceber isso não transforma você em uma pedra impassível. Trata-se unicamente de notar que o fundamento de tudo o que se move jamais esteve implicado na pressa da correnteza. O que olha é livre.

Cessa a vigilância desgastante. O rio corre sozinho sem que ninguém precise empurrá-lo.

Fica apenas a amplidão.

Sem margens.