O céu que não se altera com a tempestade

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O céu que não se altera com a tempestade

Foto: Alfred Schrock em Unsplash

Palavras funcionam como demarcações geográficas para territórios que jamais aceitaram ser divididos por cercas. Nomear o silêncio é a primeira tentativa, quase inevitável, de cobri-lo com o ruído da própria intenção.

Quando a tradição oculta a simplicidade do ser sob manuais complexos de postura e respiração, cria-se a ilusão de que a quietude é um pico montanhoso alcançável apenas após penosa subida. O esforço egoico adora o projeto de se aperfeiçoar, transformando o recolhimento em uma meta distante e a mente em um artesão exausto tentando fabricar o próprio ar que respira. A busca por um estado especial de consciência ignora o solo primordial sobre o qual todas as experiências passageiras surgem e se dissolvem. É como a atmosfera do verão que se esforçaria para produzir o azul por trás das tempestades tropicais, esquecendo que as nuvens pesadas de chuva jamais tocaram a vastidão em que flutuam. O silêncio não resulta do término do barulho; ele é o espaço fundamental no qual o próprio barulho ganha forma e desaparece.

"A meditação já está lá, é sua natureza. Não precisa ser conquistada, basta que seja lembrada. Está lá, esperando por você. Basta voltar-se para dentro, e ela está disponível."
Osho

Ao escutar esse lembrete, a mente reativa busca imediatamente transformar a ausência de esforço em mais uma técnica a ser dominada. Ela pergunta como lembrar, qual o método exato para esquecer as distrações e em qual momento a clareza finalmente se tornará permanente.

Reside precisamente nessa urgência o mal-entendido de toda uma vida dedicada ao acúmulo de respostas. O ego busca a libertação como quem espera ansiosamente pela chegada de uma nova estação, sem notar que o firmamento não se altera entre o inverno rigoroso e a primavera exuberante.

Nada falta.

Em vez de reconhecer a natureza já presente da percepção, preferimos tratar a meditação como um troféu conquistado após árdua disciplina. O mestre Shankara já apontava que a realidade do Ser, o Svarupa ou essência inata, não é fruto de nenhuma ação ritual ou mental, pois tudo o que é construído pelo esforço do tempo é inevitavelmente corroído por ele. A estrutura egoica resiste a essa constatação porque a descoberta do silêncio inato decreta a falência do seu papel de praticante dedicado. Prefere-se a luta interminável contra as turbulências do pensamento à simples percepção de que a tempestade e a estiagem ocorrem sob o mesmo fundo neutro. O desejo de silenciar a mente é apenas mais uma rajada de vento cortando o céu.

Investigação direta, o Vichara, não significa instaurar uma batalha contra a variação do clima interno. Trata-se de notar a presença imutável que observa o vendaval com a mesma serenidade com que registra a calmaria subsequente.

Esta atenção é imediata.

Observe o exato instante em que um julgamento surge no decorrer do dia, sem tentar corrigi-lo, estendê-lo ou expulsá-lo. Deixe que os pensamentos passem como a névoa matinal se dissipando sob os primeiros raios de sol, sem reivindicar a autoria do nevoeiro nem a propriedade da luz.

Contudo, o hábito secular de nos identificarmos com as oscilações meteorológicas da psique faz com que a atenção se prenda ao granizo do medo e da ansiedade. Acreditamos erroneamente que o acúmulo de nuvens altera a substância do firmamento, confundindo a passagem de uma frente fria com o fim da própria luz solar. Voltar-se para dentro não é um retiro físico ou um transe induzido, mas a simples interrupção dessa fascinação hipnótica pelo clima, repousando na testemunha que antecede qualquer mudança de temperatura.

O silêncio precede tudo.

Se a quietude subjacente a todas as coisas é a mesma base que acolhe a leitura silenciosa destas linhas, o que exatamente em você continua em movimento quando cessa a tentativa de governar a direção do vento?