O avesso do barulho do mundo

✎ Editar publicação

O avesso do barulho do mundo

Foto: Chairulfajar em Unsplash

O zumbido discreto da geladeira na cozinha durante a madrugada revela um plano de fundo que costuma passar despercebido durante o dia. Quando esse aparelho finalmente desliga, um tipo diferente de presença se impõe no cômodo. Não é a mera ausência de som, mas a revelação do espaço que o ruído ocupava antes.

Nós nos acostumamos a definir a existência pela atividade constante. Se a mente não está processando uma opinião, planejando o dia seguinte ou comentando o comportamento alheio, sentimos uma espécie de vertigem. O silêncio nos parece um deserto árido, um tédio intolerável que precisa ser imediatamente preenchido com música, notificações ou monólogos internos. Identificamos quem somos com esse ruído incessante de autodefinição.

A tradição não-dual, contudo, aponta para uma realidade que subverte essa lógica. Em seus diálogos no subúrbio de Mumbai, Nisargadatta Maharaj frequentemente confrontava os buscadores que tentavam enquadrar a libertação em categorias lógicas ou em estados de transe místico. Ele desarmava a necessidade de acúmulo conceitual com uma afirmação simples e desconcertante:

"A conversa acontece no seu mundo. No meu, há um eterno silêncio. Meu silêncio canta, meu vazio é repleto, não me falta nada."
— Nisargadatta Maharaj

A mente egoica escuta essas palavras e imediatamente tenta transformá-las em um ideal romântico. Imagina-se um estado de anestesia mental, um isolamento voluntário onde o pensamento é proibido ou suprimido à força. Essa é a grande armadilha da busca pelo silêncio: tratá-lo como um objeto a ser conquistado através do esforço pessoal. Tentamos fabricar o silêncio através de técnicas de concentração, sem perceber que o esforço para aquietar a mente é apenas mais um ruído.

Esse vazio de Nisargadatta não é a negação niilista da existência. Na filosofia clássica indiana, Shankara descrevia que a natureza essencial da consciência não é afetada pelas sobreposições do pensamento, assim como o espaço dentro de um vaso de barro não se altera quando o vaso é quebrado. O silêncio primordial, muitas vezes chamado de mauna na tradição do Advaita, não é a falta de palavras, mas o substrato consciente no qual o som e a ausência de som aparecem e desaparecem.

Funciona como a caixa de ressonância de um violão de boa madeira. O que produz a beleza do som não é a rigidez da madeira em si, mas o espaço oco, o vazio protegido em seu interior. Se preenchermos esse espaço com areia para torná-lo sólido, o instrumento perde sua voz. Nossa mente passa a vida tentando se preencher de conceitos, crenças e identidades rígidas, sem perceber que é justamente a nossa abertura espaçosa e sem forma que permite que a vida seja experimentada com total frescor.

Na prática diária, a investigação não exige que nos retiremos para uma caverna ou que paremos de falar com as pessoas. A auto-observação começa quando percebemos a urgência interna de preencher os pequenos hiatos do dia. O que acontece quando o sinal de trânsito fecha e nós não pegamos o celular? O que se revela no segundo exato entre a pergunta de alguém e a nossa resposta imediata, defensiva ou autoafirmativa?

Habitar esse breve intervalo é o início do verdadeiro autoinquérito. É notar que antes de qualquer palavra surgir, a consciência silenciosa já estava lá, acolhendo o pensamento sem ser modificada por ele. Quando o zumbido do mundo cessa por um instante, descobrimos que o silêncio não precisa ser construído; ele é o que resta quando a pretensão de ser alguém finalmente descansa.