A ilusão do buscador e o que não pode ser conhecido

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A ilusão do buscador e o que não pode ser conhecido

Foto: Kabi Acharya em Unsplash

A tentativa humana de definir a si mesma é uma busca circular que sempre termina em frustração. Definimo-nos pelo que fazemos, pelo que sentimos e pelas histórias que acumulamos ao longo dos anos. Essa identidade construída, no entanto, é inerentemente instável, pois depende inteiramente de fatores flutuantes. Buscamos segurança em um território que muda constantemente sob nossos pés.

Quando olhamos para a tradição do Advaita Vedanta, deparamo-nos com uma provocação que implode essa busca por autodefinição. No Avadhut Gita, o sábio Dattatreya nos confronta com uma afirmação que desafia a própria estrutura do pensamento linear:

Eu não sou matéria, mas um princípio imutável e além do alcance da imaginação. Sou livre de toda a servidão, nem sou alguém que escraviza. Como posso, então, ser cognoscível em minha natureza?
Dattatreya, Avadhut Gita - Cap 1

Para o leitor contemporâneo, acostumado a mensurar o valor de tudo pela utilidade prática ou pela capacidade de ser descrito, essas palavras parecem um enigma sem sentido. Dattatreya não está propondo uma nova crença ou um dogma metafísico. Ele está apontando para um fato simples, embora radical: aquilo que você realmente é não pode ser transformado em um objeto de conhecimento.

A mente humana funciona por meio de contrastes e categorizações. Nós conhecemos uma cadeira porque ela se distingue do espaço ao seu redor; conhecemos uma emoção porque ela surge e desaparece contra um fundo de relativa quietude. Tudo o que é cognoscível — ou seja, tudo o que pode ser percebido, nomeado ou imaginado — pertence à categoria do observado.

O corpo é observado, os pensamentos são observados, até mesmo a sensação de um "eu" individual é observada. Se tudo isso é observado, quem ou o que é o observador? Se tentamos imaginar esse observador, criamos apenas mais uma imagem mental, outro objeto. O princípio imutável de que fala o texto não é uma "coisa" sutil que pode ser encontrada após anos de meditação.

É a própria consciência que possibilita qualquer percepção, mas que nunca pode ser colocada diante de si mesma para ser examinada. É aqui que a mente egoica oferece sua resistência mais tenaz. O ego sobrevive por meio da apropriação. Ao ler sobre um "princípio imutável e livre", a mente imediatamente tenta transformar essa descrição em um objetivo a ser alcançado.

Ela projeta um estado de iluminação futura onde "eu" serei finalmente livre. Esse é o grande equívoco que perpetua a busca espiritual sem fim. A mente quer acumular a libertação como se fosse um bem de consumo espiritual. Ela cria a ilusão de que existe um buscador que, através de esforço e técnica, se tornará livre.

Mas Dattatreya desfaz essa ilusão ao afirmar que não há "alguém que escraviza" nem "servidão". A própria ideia de que estamos aprisionados e precisamos de libertação é o nó conceitual que precisa ser desfeito. Essa resistência também se manifesta como medo. Para a mente, a perspectiva de ser algo que não pode ser conhecido equivale à aniquilação.

O ego prefere a segurança de uma identidade limitada e sofredora à imensidão de uma liberdade que não pode ser controlada ou rotulada. Ele prefere ser um "eu" ansioso do que não ser "alguém" definível. A investigação não-dual, ou Vichara, não é um exercício de especulação intelectual, mas uma observação implacável dessa dinâmica no cotidiano.

Não se trata de alcançar um estado alterado de consciência, mas de notar, no meio das atividades diárias, a pressuposição constante de que somos o objeto e não o sujeito. Quando surge a pressa no trânsito, a frustração no trabalho ou a ansiedade diante do futuro, a reação automática é nos identificarmos com esses estados.

Dizemos "estou ansioso". A prática consiste em questionar essa premissa. A ansiedade é um fenômeno que surge e passa. Ela é conhecida. O que quer que seja que testemunha a ansiedade não está ansioso. É imutável, intocado pelo movimento da mente. Essa mudança de perspectiva não exige esforço para mudar o que está sendo sentido, mas sim um recuo silencioso para a posição de testemunha.

Percebe-se que a busca por se tornar algo é o próprio obstáculo. A liberdade não é um destino onde chegamos; é a natureza daquilo que já testemunha a nossa tentativa de chegar a algum lugar. Ao longo do dia, o convite é simplesmente notar os momentos em que a mente tenta agarrar uma identidade. Quem é esse que se define? Onde está aquele que se sente escravizado?