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A urgência em consertar o mundo é um dos impulsos mais aplaudidos da modernidade. Sentimo-nos nobres quando nos colocamos na posição de salvadores, de agentes de mudança que corrigirão os desvios da existência. No entanto, essa pressa em agir frequentemente encobre um profundo desconhecimento de quem realmente age.
Corremos para o front da caridade e do ativismo sem antes questionar a natureza daquele que deseja ajudar. Essa cegueira fundamental transforma o que deveria ser um ato de partilha em um exercício sutil de autoengrandecimento. É sobre essa ilusão que repousa uma advertência contundente.
"O Senhor olhará por isso. Você não possui poder para fazer isso. [...] Que o homem primeiro O realize. Que o homem primeiro consiga a autoridade de Deus e seja dotado de Sua força - somente então, pode ele pensar em fazer bem aos outros."
Sri Ramakrishna (O Evangelho de Sri Ramakrishna - Introdução)
A provocação de Sri Ramakrishna corta como uma lâmina a vaidade do benfeitor. Dizer que não possuímos o poder de fazer o bem parece, à primeira vista, um convite à apatia ou ao egoísmo. Mas o Advaita não endossa a indiferença; ele exige o fim da hipocrisia.
Quando operamos a partir do ego, nossa pretensa ajuda é apenas uma tentativa de moldar o mundo à nossa imagem. Projetamos nossas carências, nossos conceitos de ordem e nossas frustrações no outro, rotulando essa projeção de "serviço". O necessitado torna-se um mero palco para a encenação da nossa virtude.
A mente egoica resiste ferozmente a essa desconstrução. Ela argumenta que a fome não pode esperar pela iluminação de quem ajuda, ou que o sofrimento do mundo exige ação imediata, não contemplação. Essa objeção, embora pareça pragmática, ignora que uma mente confusa só pode produzir mais confusão, mesmo sob o disfarce da caridade.
Se não sabemos quem somos, como podemos pretender saber o que é bom para o outro? O diagnóstico que fazemos da dor alheia é inevitavelmente contaminado por nossos próprios filtros mentais. Oferecemos soluções paliativas que acalentam nossa culpa, mas que mantêm intacta a raiz da ilusão da separação.
O verdadeiro serviço, no contexto da não-dualidade, não é uma ação realizada por um indivíduo em favor de outro. É a expressão espontânea da ausência de separação. Enquanto houver um "eu" que ajuda e um "outro" que é ajudado, a dualidade permanece intacta, e com ela, o conflito subjacente de quem se sente superior por poder doar.
A "autoridade" mencionada por Ramakrishna não é um título ou um poder místico concedido a um ego privilegiado. É a dissolução da própria ideia de agência individual. Quando a ilusão do "eu realizador" desmorona, o que resta é a totalidade agindo através do instrumento humano, sem a interferência do orgulho.
O erro reside em acreditar que somos os autores das ações. O Advaita nos lembra que o corpo e a mente operam segundo as leis da natureza, mas o Eu real permanece como testemunha imutável. Achar que "nós" estamos salvando alguém é ignorar a engrenagem universal que sustenta toda a existência.
Para o buscador, o convite diário não é o isolamento do mundo, mas a investigação rigorosa de cada impulso de intervenção. Ao sentirmos a necessidade compulsiva de corrigir o outro, de dar conselhos não solicitados ou de assumir o fardo alheio, devemos parar e indagar: quem é este que deseja salvar o mundo?
Essa investigação, o Vichara, revela que o desejo de consertar o exterior é quase sempre uma fuga da desordem interna. Buscamos fora a harmonia que não encontramos em nós mesmos. Silenciar essa pretensão é o primeiro passo para que uma ação genuína, livre de segundas intenções, possa finalmente emergir.
O serviço verdadeiro começa no reconhecimento de nossa própria insolvência espiritual. Somente quando esvaziamos a mente de suas pretensões de controle e importância pessoal é que nos tornamos canais limpos. Até lá, qualquer tentativa de "fazer o bem" corre o risco de ser apenas mais um ruído no mundo.




